Fraude no Banco Master envolve empresa de capital R$ 2 mi. O Banco Master é acusado pelo Banco Central (BC) de ter utilizado a Brain Realty Consultoria e Participações Imobiliárias S.A., companhia com capital social de apenas R$ 2,2 milhões, como peça-chave em um esquema que movimentou quase meio bilhão de reais por meio de fundos geridos pela Reag.
A operação, descrita em denúncia enviada pelo BC ao Ministério Público Federal (MPF), aponta que a Brain Realty obteve um empréstimo de R$ 459 milhões junto ao Master em 22 de abril de 2024. Horas depois, segundo os investigadores, o montante foi integralmente aplicado em fundos da Reag, que já havia sido citada em outras apurações por práticas semelhantes.
Fraude no Banco Master envolve empresa de capital R$ 2 mi
Documentos anexados à denúncia revelam que o capital social da Brain Realty saltou de apenas R$ 100 para R$ 2,2 milhões em 26 de dezembro de 2023, cerca de quatro meses antes da contratação do empréstimo. A assembleia que aprovou o aumento de capital foi presidida por João Carlos Mansur, fundador da Reag, que deixou a gestora após a operação Carbono Oculto, da Receita Federal, investigar a utilização de fundos para lavar dinheiro do PCC.
A empresa é comandada por Marisa Nassar, ex-funcionária da própria Reag. Questionada, Nassar afirmou que não poderia comentar o caso e direcionou a reportagem a Leonardo Donato, ex-executivo da Reag até 2023 e administrador da Blum Capital Partners, acionista da Reag Asset Management. Donato também preferiu não se manifestar. O Banco Master não respondeu aos pedidos de esclarecimento.
Como funcionava a ciranda financeira
Segundo o BC, o Master emprestava recursos a empresas como a Brain Realty, que imediatamente aplicavam o dinheiro em fundos da Reag. Na superfície, os empréstimos apareciam regulares nos sistemas de supervisão bancária, pois respeitavam os limites de Basileia. Entretanto, dentro dos fundos, o dinheiro era usado para comprar ativos de baixa liquidez a preços artificialmente elevados, inflando o patrimônio e permitindo novas transferências.
No caso da Brain Realty, os R$ 459 milhões foram aportados no Brain Cash Fundo de Investimento Financeiro Multimercado, cujo único cotista era a própria empresa. No mesmo dia, o Brain Cash transferiu o valor para o fundo D Mais, também administrado pela Reag. O principal ativo deste fundo eram cártulas de ações do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), papéis físicos com valor de mercado reduzido, mas registrados nos balanços por cifras milionárias.
Rastro de R$ 11,5 bilhões
A suspeita do Banco Central é que operações semelhantes tenham lavado pelo menos R$ 11,5 bilhões. O dinheiro saía do Master por meio de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) captados junto a investidores, financiando empréstimos direcionados a empresas que, por sua vez, abasteciam os fundos controlados pela Reag. Parte dos recursos, alegam os investigadores, terminava em contas de laranjas ligados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Master.
A denúncia atual soma-se a outras investigações envolvendo o banco. Em uma delas, o Master revendeu ao Banco de Brasília (BRB) R$ 12,2 bilhões em créditos supostamente inexistentes. Há ainda a apuração sobre seis fundos associados ao PCC, identificados na operação Carbono Oculto e também conectados ao esquema do Master.
Passo a passo do mecanismo
1. O Banco Master concedia empréstimo a uma empresa formalmente independente, mas ligada ao esquema.
2. A beneficiária aplicava o valor em fundos administrados pela Reag.
3. O BC visualizava operações dentro dos limites regulatórios, mascarando o risco real.
4. O fundo adquiria um ativo de baixa liquidez por preço muito acima do mercado, inflando seu patrimônio.
5. O vendedor do ativo embolsava lucro expressivo e reinvestia em outros fundos.
6. Os recursos circulavam entre vários fundos até chegar a carteiras em nome de laranjas vinculados ao grupo Master.
Imagem: Maria Isabel Oliveira
Próximos passos da investigação
O MPF analisa a documentação encaminhada pelo Banco Central para decidir sobre a abertura de ação penal. Enquanto isso, o BC continua monitorando as movimentações do Master e da Reag, buscando identificar novos envolvidos e recuperar ativos desviados. Não há prazo definido para a conclusão das investigações.
Em comunicado anterior, o Banco Master já negara irregularidades em processos relacionados, afirmando que “todas as operações respeitam a legislação vigente”. Desta vez, porém, a instituição não respondeu aos questionamentos específicos sobre a Brain Realty.
O caso reforça a preocupação das autoridades com o uso de fundos de investimento para mascarar operações ilícitas, prática que se vale da complexidade regulatória e da liquidez reduzida de determinados ativos para dificultar o rastreamento do dinheiro.
Com a nova denúncia, cresce a pressão sobre o Banco Master e sobre a Reag, que podem enfrentar processos administrativos e criminais, além de possíveis sanções financeiras e restrições operacionais impostas pelo Banco Central.
Para acompanhar outras análises sobre o impacto dessas investigações no mercado financeiro, visite a seção de Economia do Diário de Finanças.
Em resumo, a denúncia indica que uma empresa de capital modesto foi usada para girar quase R$ 500 milhões e alimentar um esquema que pode ter lavado bilhões. Continue acompanhando o Diário de Finanças para atualizações e desdobramentos dessa investigação.



