Brasil pode zerar emissões até 2040 — essa é a principal conclusão do estudo “Brasil Net Zero 2040”, apresentado por cinco dos mais renomados climatologistas do país na Academia Brasileira de Ciências.
A pesquisa chega às vésperas da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-30), que começa em Belém no dia 10, e reforça a estratégia brasileira de liderar a agenda climática global com metas mais ambiciosas do que as defendidas por grandes economias, como China (2060) e Índia (2070).
Brasil pode zerar emissões até 2040, dizem cientistas
Coordenado pelo Instituto Amazônia 4.0, o relatório propõe um “modelo de transição tropical” que combina eletrificação, biocombustíveis avançados, uso mais intensivo da terra e restauração florestal. O plano evita copiar o roteiro de descarbonização do Norte Global, centrado exclusivamente em energia elétrica, e usa as vantagens brasileiras — biodiversidade, matriz limpa e vasto território florestal — como base para uma economia regenerativa.
Temperatura 1,5 °C: relógio climático em contagem regressiva
O estudo chega em um momento crítico. A ONU estima que, mesmo que todos os países cumpram as metas atuais, a temperatura média global pode subir entre 2,3 °C e 2,5 °C até 2100, acima do limite de 1,5 °C firmado no Acordo de Paris. Caso as políticas permaneçam inalteradas, o aquecimento pode alcançar 2,8 °C, cenário que, segundo o climatologista Carlos Nobre, representa “risco gigantesco” de desencadear a sexta grande extinção em massa.
Dois caminhos para o carbono zero
Os pesquisadores modelaram dois cenários:
- Energia: eliminação total dos combustíveis fósseis, com biocombustíveis substituindo gasolina e diesel.
- Uso da terra: balanço de emissões alcançado por agricultura regenerativa e manejo integrado de produção.
Em ambos, a preservação de florestas permanece inegociável. O grupo defende zerar o desmatamento ilegal em todos os biomas até 2030 e restaurar entre 20 e 30 milhões de hectares degradados até 2040, volume equivalente ao território que o país perdeu para incêndios em 2024.
Reflorestar custa caro, mas captura 340 Mt de CO₂
Restaurar florestas tropicais envolve investimentos robustos. Estimativa da The Nature Conservancy indica custo anual de até US$ 1,2 bilhão. Já pesquisa liderada por José Maria Cardoso da Silva, da Universidade de Miami, calcula que conservar 80 % da Amazônia exigiria de US$ 1,7 bilhão a US$ 2,8 bilhões por ano. O retorno climático, porém, é expressivo: a recuperação projetada para 2040 pode remover 340 milhões de toneladas de CO₂ da atmosfera.
Tropical Forests Forever Facility: financiando a floresta em pé
Para viabilizar a meta, o governo brasileiro apresentou o fundo Tropical Forests Forever Facility (TFFF). Lançado antes da COP-30, o mecanismo já soma US$ 5,6 bilhões aportados por Noruega, Indonésia, França, Portugal e Holanda, mas a meta é captar pelo menos US$ 125 bilhões.
Os rendimentos do TFFF serão distribuídos a países tropicais que mantêm suas florestas intactas, com 20 % reservados a povos originários. O valor-piso estipulado é de US$ 4 por hectare conservado, criando incentivo econômico duradouro para a proteção dos biomas.
Imagem: Hermes Caruzo
Financiamento precisa chegar a quem protege o território
Taciana Stec, do Instituto Talanoa, alerta que levantar recursos é apenas parte do desafio. É essencial garantir que o dinheiro alcance quem está na linha de frente da conservação, por meio de pagamentos por serviços ambientais, fomento à bioeconomia e geração de empregos verdes.
Osmar Bambini, CIO da climatech umgrauemeio, reforça que tecnologia e renda local são indispensáveis para manter a floresta viva. “Sem brigadistas equipados, remunerados e integrados à economia regional, não há proteção possível”, afirma.
Biocombustíveis e BECCS: transição energética tropical
No setor de energia, o estudo destaca o potencial do etanol, do diesel verde e da tecnologia BECCS (Bioenergia com Captura e Armazenamento de Carbono). Segundo Roberto Schaeffer, da UFRJ, parte das refinarias de petróleo poderia ser adaptada para processar biomassa, “desfossilizando” a matriz de combustíveis líquidos.
Nos cenários elaborados, os biocombustíveis avançados podem variar de 18 % a núcleo da economia nacional, contribuindo decisivamente para o balanço negativo de carbono — condição em que o Brasil passaria a remover mais CO₂ do que emite.
Próximos passos rumo à COP-30
Alcançar emissões líquidas zero em 2040 exige reduzir desmatamento, restaurar milhões de hectares, escalar biocombustíveis e assegurar financiamento consistente. Ao chegar à COP-30 com um plano baseado em soluções tropicais e um fundo internacional inédito, o Brasil busca provar que é possível conciliar desenvolvimento econômico e proteção climática — e fazê-lo numa década de antecedência em relação à meta global de 2050.
Quer entender como políticas econômicas podem impulsionar a transição verde? Confira outros estudos na seção de Economia do nosso site.
Resumo: Cientistas mostram que o Brasil pode neutralizar suas emissões em 2040 combinando reflorestamento, biocombustíveis e financiamento inovador. Acompanhe nossa cobertura da COP-30 e compartilhe esta notícia para manter o debate climático em destaque!



