Os contratos futuros de juros registraram forte queda nos vencimentos de curto e médio prazo nesta quarta-feira, após a divulgação de dados de inflação no Brasil e nos Estados Unidos reforçar a expectativa de afrouxamento monetário nas duas maiores economias das Américas. Mesmo com a atenuação do movimento nos prazos mais longos ao fim do pregão, a curva a termo consolidou um alívio expressivo nas taxas de até cinco anos.
Ao término dos negócios, a taxa do Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2026 caiu de 14,905 % para 14,895 %. O contrato de janeiro de 2027 recuou de 14,075 % para 13,97 %, enquanto o de janeiro de 2029 passou de 13,19 % para 13,13 %. Já o DI para janeiro de 2031 encerrou praticamente estável, repetindo 13,40 %. O deslocamento descendente nos vértices curtos e intermediários contrasta com a moderação no fim da curva, indicando reprecificação concentrada no horizonte imediatamente afetado pela política monetária doméstica.
Movimento semelhante foi observado nos Treasuries norte-americanos. O rendimento da T-note de dois anos diminuiu de 3,783 % para 3,741 %, enquanto o yield do T-bond de 30 anos avançou levemente, de 4,854 % para 4,881 %. A inclinação menos pronunciada da curva dos Estados Unidos corrobora a leitura de que o Federal Reserve pode iniciar cortes de juros em um cenário sem deterioração significativa da atividade, o que, por consequência, reduz a pressão sobre economias emergentes.
O principal gatilho para a queda dos juros locais foi a divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de julho, que subiu 0,26 %. O resultado ficou bem abaixo das estimativas de mercado e foi influenciado, sobretudo, por itens voláteis pouco sensíveis aos ajustes de Selic, como energia elétrica e passagens aéreas. Além do alívio nos componentes mais erráticos, os núcleos de inflação mostraram melhora adicional, evidenciando a atuação da política monetária e os efeitos da valorização do real sobre os preços.
Segundo avaliação de Daniela Lima, economista da Kinea Investimentos, o câmbio tem desempenhado papel decisivo na desinflação recente. Ela destaca que o repasse dos preços do atacado para o varejo vem ocorrendo de forma menos intensa do que se projetava no início do ano. Diante da surpresa benignamente, a profissional estima que diversas instituições revêem suas projeções de inflação para baixo. No cenário da gestora, o IPCA encerrará 2025 acumulando alta de 4,7 %, inferior à mediana de 5,05 % coletada no boletim Focus desta semana.
Para além da fotografia de curto prazo, Lima acredita que as expectativas de inflação também devem recuar para 2026, respaldadas pela menor inércia inflacionária. O pano de fundo favorece o início do ciclo de flexibilização da Selic ainda em 2024, com a taxa básica podendo fechar dezembro em 14,50 % no quadro central da Kinea. O dado de hoje, avalia a economista, reforça a leitura de desaceleração disseminada e deve ser considerado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) em suas próximas reuniões. A duração e a intensidade do ciclo, contudo, permanecem dependentes de variáveis políticas, entre elas a eleição presidencial do próximo ano.
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No exterior, o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) dos Estados Unidos também foi bem recebido pelos investidores. Embora alguns segmentos mostrem impacto de tarifas comerciais em vigor, não se verificou aceleração ampla no nível de preços. Essa leitura sustenta a tese de que o Federal Reserve poderá reduzir os juros sem provocar recessão significativa, cenário que tende a favorecer ativos de risco em escala global.
Para o Brasil, a perspectiva de corte nos juros básicos dos Estados Unidos costuma ter desdobramentos adicionais por meio do câmbio. A possibilidade de uma Selic ainda elevada em termos reais e a queda dos rendimentos dos Treasuries fortalecem o diferencial de taxas, atraindo fluxo externo para títulos domésticos e apreciando o real. A valorização da moeda, por sua vez, intensifica o canal desinflacionário, mecanismo citado por Lima ao comentar as últimas leituras do IPCA.
Com a combinação de inflação surpreendentemente baixa e perspectiva de políticas monetárias menos restritivas em ambos os países, o mercado reforçou as apostas em cortes mais agressivos da Selic ao longo do segundo semestre. Ao mesmo tempo, a estabilidade relativa dos vértices longos indica cautela quanto à trajetória fiscal e ao quadro político de médio prazo, fatores que seguirão influenciando o prêmio exigido pelos investidores nos contratos de prazo mais extenso.
Enquanto o debate sobre o ritmo adequado de flexibilização prossegue, a sessão de hoje sinaliza que, no curto prazo, a ancoragem das expectativas de inflação e o ambiente externo mais favorável criam espaço para custos de financiamento menores no mercado local. A evolução dos indicadores de preços nas próximas leituras será determinante para confirmar a tendência evidenciada pelo comportamento da curva de juros após o novo conjunto de dados.



