Bolha de inteligência artificial é a expressão que domina as conversas nos corredores de Wall Street após três anos de forte euforia impulsionada pelo lançamento do ChatGPT, da OpenAI.
Mesmo com bilhões de dólares ainda correndo para a tecnologia, analistas e gestores começam a questionar a sustentabilidade dos investimentos e se o mercado não estaria prestes a enfrentar uma correção semelhante às vividas em outros ciclos de inovação.
Bolha de inteligência artificial preocupa Wall Street
O desconforto ganhou força depois da recente queda nas ações da Nvidia, da forte desvalorização da Oracle e da piora no sentimento em relação às empresas ligadas à OpenAI. Para Jim Morrow, da Callodine Capital Management, o momento atual marca a fase em que o mercado “coloca dinheiro na mesa” para verificar se os retornos compensarão os altos custos dos projetos.
Acesso ao capital: OpenAI e o risco de financiamento circular
A OpenAI planeja desembolsar cerca de US$ 1,4 trilhão nos próximos anos, apesar de prever queimar US$ 115 bilhões até 2029 antes de gerar caixa apenas em 2030. A startup, porém, conseguiu captar aproximadamente US$ 40 bilhões neste ano, em parte com o SoftBank Group. A Nvidia, por sua vez, se comprometeu a investir até US$ 100 bilhões em acordos que destinam recursos aos próprios clientes, alimentando temores de financiamento circular no ecossistema de inteligência artificial.
Eric Clark, gestor do Rational Dynamic Brands Fund, alerta que a concentração de trilhões de dólares em poucos nomes torna o setor vulnerável: ao primeiro sinal de desaceleração, muitos investidores podem buscar a saída simultaneamente.
Big Techs reforçam os gastos, mas lucros mostram sinal amarelo
Alphabet, Microsoft, Amazon e Meta Platforms devem somar mais de US$ 400 bilhões em despesas nos próximos 12 meses, principalmente em data centers. Embora as receitas vinculadas à inteligência artificial avancem nos negócios de nuvem e publicidade, elas ainda ficam distantes dos custos crescentes.
Michael O’Rourke, estrategista da Jonestrading, observa que qualquer estabilização ou queda nas projeções de crescimento pode revelar um descompasso perigoso. As “Sete Magníficas” — Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta, Nvidia e Tesla — projetam aumento de lucros de 18% para 2026, o ritmo mais lento em quatro anos e apenas ligeiramente superior ao S&P 500.
A depreciação acelerada de equipamentos, resultado da corrida por capacidade computacional, pressiona os balanços. Alphabet, Microsoft e Meta já quase dobraram suas despesas de depreciação em menos de um ano e podem chegar a US$ 30 bilhões no próximo trimestre, afetando recompras de ações e dividendos.
Oracle sentiu o baque
A Oracle ilustra o dilema. Suas ações dispararam com contratos de nuvem, mas a construção de data centers exigiu forte endividamento. Na quinta-feira (12), a empresa divulgou gastos de capital superiores às expectativas e crescimento de vendas abaixo do previsto, provocando queda nas ações. No dia seguinte, notícias sobre atrasos em projetos para a OpenAI ampliaram as perdas e elevaram o risco de crédito da companhia ao maior nível desde 2009.
Imagem: Divulgação
Para Kim Forrest, da Bokeh Capital Partners, investidores de crédito sinalizam preocupações mais rapidamente que os acionistas: “Eles querem ter certeza de que receberão o dinheiro de volta”.
Valuation ainda distante da bolha das pontocom
A discussão sobre uma bolha de inteligência artificial traz inevitáveis comparações com a bolha da internet. Entretanto, o Nasdaq 100 é negociado a cerca de 26 vezes os lucros projetados — patamar elevado, mas bem abaixo das mais de 80 vezes registradas no auge das pontocom. Nvidia, Alphabet e Microsoft operam abaixo de 30 vezes, enquanto Palantir e Snowflake chegam a múltiplos superiores a 180 e 140, respectivamente.
Tony DeSpirito, da BlackRock, argumenta que os valuations atuais não repetem os excessos de 2000, embora admita bolsões de especulação. “Não vejo exuberância irracional nos nomes do Mag 7”, reforça.
2026 no radar: reduzir exposição ou dobrar a aposta?
Com o horizonte de 2026 se aproximando, investidores avaliam se devem reduzir posições antes de um possível estouro ou ampliar a exposição para capturar ganhos de uma tecnologia considerada transformadora. Sameer Bhasin, da Value Point Capital, afirma que a correção não ocorre quando o crescimento desacelera, e sim quando deixa de acelerar. A perspectiva de rotação setorial segue no radar.
No curto prazo, a combinação de capital farto, promessas de disrupção e métricas financeiras ainda sob controle sustenta a tese. Contudo, o equilíbrio entre investimentos multibilionários e geração efetiva de caixa será determinante para definir se a inteligência artificial entregará retorno sustentável ou se reproduzirá o enredo clássico de uma bolha.
Para seguir acompanhando análises sobre tecnologia e mercado financeiro, visite a seção de Economia do Diário de Finanças.
Em resumo, o debate sobre a bolha de inteligência artificial reflete o choque entre expectativas grandiosas e a dura realidade dos custos. Mantenha-se informado e avalie seu portfólio com cautela: a história desse setor ainda está sendo escrita.



