Bonds da Braskem registraram perdas expressivas, chegando a desvalorizações de até 80%, depois que a petroquímica anunciou a contratação de assessores para “otimizar suas finanças”, movimento interpretado pelo mercado como sinal de possível reestruturação de dívida.
Na última sexta-feira, a surpresa provocou vendas em massa de títulos em dólar que somam valor nominal superior a US$ 9 bilhões. A maioria deles passou a ser negociada abaixo de 45 centavos por dólar, pressionando os retornos e elevando o clima de incerteza entre credores.
Bonds da Braskem despencam até 80% após crise súbita
O tombo foi ainda mais severo para os papéis híbridos com vencimento em 2081. Esses títulos, emitidos em 2020 em Nova York quando a companhia ainda ostentava grau de investimento, ocupam posição subordinada na fila de credores e agora valem cerca de 18 centavos por dólar, acumulando perda de 80% apenas em setembro. “Esses papéis basicamente não valem nada”, avalia Omar Zeolla, analista da Oppenheimer & Co.
Rendimentos disparam e mercado calcula recuperação
Os bonds denominados em dólar com vencimento em 2030, entre os mais líquidos, tiveram o rendimento projetado estourando a marca de 33% ao ano. Estimativas compiladas pela Bloomberg apontam recuperações de 40 a 60 centavos para os títulos tradicionais, excluídos os instrumentos subordinados.
Sequência de pressões financeiras
A empresa, controlada pela Novonor (ex-Odebrecht) em parceria com a Petrobras, vem atravessando um período de forte estresse. O desastre ambiental em uma mina de sal em Alagoas obrigou a provisão de cerca de US$ 3,4 bilhões em multas e reparações, além de já ter resultado em desembolsos de aproximadamente R$ 4,2 bilhões até junho.
Somam-se a isso a sobreoferta global de petroquímicos, que derrubou preços, e a queima contínua de caixa observada nos resultados recentes. Analistas classificam o cenário como “sombreado” pelo aumento da dívida, ainda que a Braskem dispusesse de US$ 1,7 bilhão em caixa no fim do segundo trimestre.
Tentativas frustradas de venda e impacto na Novonor
Considerada “joia da coroa” da Novonor, a Braskem já teve suas ações usadas como garantia de aproximadamente R$ 15 bilhões em dívidas do conglomerado. Diversas negociações para venda da participação — envolvendo Adnoc, Apollo, Unipar e, mais recentemente, o empresário Nelson Tanure — não avançaram, minando expectativas de entrada de um controlador financeiramente mais robusto.
Sem vencimentos imediatos, mas com risco latente
A próxima dívida em dólar só vence em 2028. Mesmo assim, o fato de a empresa ter recorrido a assessores antes de uma pressão de liquidez imediata acendeu o sinal de alerta. Para Roger Horn, estrategista sênior de crédito da Mariva Capital Markets, uma opção seria captar novos recursos com garantias, “ganhando tempo até que o ciclo petroquímico se reverta”.
Imagem: Divulgação
Contexto desfavorável no mercado brasileiro
A queda dos bonds da Braskem ocorre em paralelo a uma série de más notícias corporativas no Brasil, marcado pelas maiores taxas de juros em uma década. Na semana passada, a Ambipar buscou proteção emergencial contra credores, enquanto o Banco Master enfrenta preocupações que podem se alastrar para empresas e fundos de pensão detentores de seus instrumentos de dívida. “Há medo do próximo dominó”, resume Horn.
Próximos passos
A Petrobras, sócia na Braskem, declarou estar avaliando opções para a companhia. Paralelamente, a petroquímica iniciou conversas com um sindicato de bancos para renovar uma linha de crédito sem garantia de US$ 1 bilhão que vence no fim de 2026. Até o momento, a Braskem não comentou publicamente sobre o futuro dos papéis 2081 nem sobre eventuais negociações de reestruturação extrajudicial.
O mercado segue atento a qualquer sinal concreto de mudanças na estrutura de capital, enquanto calcula potenciais recuperações em caso de default. Por ora, a incerteza mantém os yields em patamares elevados e os preços dos bonds em trajetória de forte desvalorização.
Para entender como outras companhias brasileiras estão enfrentando o ambiente de juros altos, confira a seção de Economia do nosso site.
Em resumo, a crise repentina nos bonds da Braskem expôs fragilidades acumuladas ao longo dos últimos anos e aprofundou dúvidas sobre a capacidade de a empresa sustentar seu endividamento atual. Acompanhe nossas atualizações e esteja por dentro dos desdobramentos que podem impactar investidores e o mercado de crédito.



