Café brasileiro é identidade cultural, indica estudo. Pesquisa de doutorado conduzida por Anna Luiza Santana Neves, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), confirma que a bebida mais consumida do país é muito mais do que fonte de cafeína: ela representa afeto, memória e tradição à mesa.
Para chegar a essa conclusão, a pesquisadora avaliou hábitos de consumo de 348 brasileiros que tomam café todos os dias, distribuídos pelas cinco regiões, em duas etapas complementares que analisaram associações espontâneas entre a bebida e diversos alimentos.
Café brasileiro é identidade cultural, indica estudo
Na primeira fase, um questionário on-line solicitou aos participantes que listassem, sem qualquer sugestão externa, os alimentos que naturalmente combinam com o café. O levantamento identificou 14 itens recorrentes, liderados por pão com manteiga, bolo caseiro, chocolate, pão de queijo e biscoito tipo água e sal. Também ganharam destaque queijo, cuscuz nordestino, torradas e bolachas, reforçando a presença de referências regionais e afetivas.
Mapeamento sensorial revela conexões afetivas
A segunda etapa reuniu 48 voluntários em uma dinâmica presencial de projective mapping. Eles agruparam diferentes preparos de café — espresso, filtrado, coado no pano, cappuccino, versões com leite e cold brew — de acordo com semelhanças sensoriais, contextos de consumo e preferências pessoais. Em seguida, cada participante associou alimentos a essas bebidas, criando um “mapa” visual das combinações mais enraizadas no imaginário nacional.
O resultado mostrou que a preferência coletiva continua centrada no café preto coado, tradicionalmente servido no coador de pano ou no filtro de papel. Esse preparo, segundo o estudo, detém forte ligação com lembranças da infância, reuniões familiares e momentos de pausa ao longo do dia. Bebidas consideradas “gourmet”, como cappuccino ou cold brew, ainda não conquistaram pares alimentares consolidados, com exceção do queijo, que dialoga bem tanto com espresso quanto com o café filtrado.
Tradição pesa mais que sofisticação
De acordo com a pesquisadora, as escolhas dos entrevistados não seguem lógica gastronômica refinada, mas sim vínculos emocionais e culturais. O café matinal, o “cafezinho” pós-almoço e o lanche da tarde funcionam como rituais cotidianos, em que os acompanhamentos evocam conforto e pertencimento. Nesse cenário, itens simples e acessíveis ganham protagonismo, enquanto combinações elaboradas permanecem restritas a nichos específicos.
Outro ponto ressaltado pelo trabalho é a diversidade regional. Enquanto torradas e biscoitos aparecem em todo o território nacional, alimentos como cuscuz de milho, tapioca e queijo artesanal reforçam identidades locais, especialmente no Nordeste e em Minas Gerais. A familiaridade com esses produtos explica a frequência com que são citados ao lado do café.
Imagem: Divulgação
Café como elo social e econômico
O estudo ocorre em um momento em que o Brasil se mantém como o maior produtor mundial de café. Para especialistas, entender o valor simbólico da bebida ajuda a explicar sua força econômica e a orientar estratégias de mercado. Marcas interessadas em lançar novos produtos ou serviços podem se beneficiar ao reconhecer que, no país, o consumo está intrinsecamente ligado a experiências de aconchego e sociabilidade.
Neves destaca que o café desponta como “um mediador de encontros”, capaz de unir gerações em torno da mesa. “Quando analisamos a percepção dos participantes, fica evidente que o sabor se mistura às lembranças. É menos sobre a combinação perfeita do ponto de vista técnico e mais sobre aquilo que aprendemos a amar desde cedo”, conclui a pesquisadora.
Com isso, o levantamento da Unicamp reforça que, no Brasil, o café permanece no centro de práticas sociais que transcendem a função estimulante. Seja no copo americano ou na xícara de porcelana, a bebida continua a contar histórias de identidade, regionalidade e afeto.
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Em resumo, a pesquisa comprova que o café brasileiro não é apenas cafeína; ele carrega memórias e tradições que atravessam gerações. Explore mais conteúdos e fique por dentro das tendências que moldam o consumo no país.



