Casamento das mulheres pretas expõe desigualdades no Brasil

Casamento das mulheres pretas continua refletindo e aprofundando desigualdades de renda, escolaridade e responsabilidade familiar no Brasil, conclui pesquisa do Núcleo de Estudos Raciais (NERI) do Insper divulgada nesta quarta-feira (20), Dia da Consciência Negra.

O relatório “Quem sai ganhando no casamento? Examinando as diferenças raciais no mercado matrimonial brasileiro”, assinado pelos pesquisadores Michael França, Milena Mendonça e Daniel Duque, analisou microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) entre 2002 e 2024 para medir como raça, renda e escolaridade influenciam uniões formais.

Casamento das mulheres pretas expõe desigualdades no Brasil

Os autores estimaram a probabilidade de uma mulher se casar, o nível educacional e a renda prevista do marido. O resultado mostra que pretas e pardas têm menos chance de contrair matrimônio que brancas. Quando se casam, costumam encontrar parceiros com escolaridade e rendimentos inferiores aos delas.

Menos casamentos, parceiros com renda menor

A pesquisa indica que, mesmo comparando mulheres pretas e brancas com idade e instrução semelhantes, aquelas de pele retinta apresentam maior probabilidade de casar com cônjuges de menor renda e menor nível educacional. Segundo o estudo, esse padrão interfere diretamente na capacidade de mobilidade social da família.

Geração após geração

O trabalho do NERI reforça que tais barreiras não surgiram nos últimos anos, mas são reproduzidas ao longo de décadas. Essa repetição de padrões limita a ascensão econômica de mulheres pretas, independentemente de origem social. Mesmo aquelas que vêm de famílias de alta renda encontram obstáculos adicionais: a cor da pele reduz os ganhos esperados em termos de escolaridade e renda do parceiro.

Maternidade solo e ciclos de pobreza

A menor taxa de casamento também se reflete em números de maternidade solo. Dados citados na pesquisa, levantados pela Fundação Getulio Vargas, mostram que 90% das 1,7 milhão de mulheres que se tornaram mães solo entre 2012 e 2022 são negras. Sem apoio econômico do cônjuge e com redes de suporte limitadas, essas mulheres enfrentam dificuldade maior para romper ciclos de pobreza.

Casamento como vetor de desigualdade

Para o pesquisador Daniel Duque, o “mercado de casamentos” funciona simultaneamente como consequência e causa da desigualdade. Se uniões ocorressem de forma mais frequente entre pessoas de rendas distintas, haveria maior convergência econômica nas gerações seguintes. No entanto, a pesquisa indica que casamentos entre parceiros de diferentes estratos socioeconômicos seguem raros, sobretudo para mulheres pretas.

Impacto estrutural

Além de fatores econômicos, estereótipos e preconceitos raciais restringem as escolhas amorosas de pretas e pardas. Essas barreiras socioculturais afetam até mesmo os maridos: a projeção de renda dos cônjuges de mulheres negras aparece consistentemente mais baixa, evidenciando entraves que ultrapassam políticas pontuais de inclusão.

Recomendações dos autores

O relatório defende políticas públicas que ampliem oportunidades de convivência entre grupos raciais e socioeconômicos distintos, além de iniciativas culturais que valorizem afetividades inter-raciais. Os pesquisadores também sugerem ações direcionadas a mães solo, como ampliação de transferências de renda e serviços de cuidado infantil, para mitigar efeitos diretos da desigualdade matrimonial.

Ao evidenciar que o casamento das mulheres pretas no Brasil ainda é marcado por múltiplas camadas de desigualdade, o estudo do Insper reforça a necessidade de políticas que enderecem não apenas diferenças de renda, mas também preconceitos estruturais que limitam escolhas afetivas e trajetórias familiares.

Para acompanhar mais análises sobre a relação entre renda e estrutura familiar, acesse a seção de Economia do Diário de Finanças.

Em resumo, o levantamento mostra como o casamento pode perpetuar desigualdades para mulheres pretas, impactando gerações futuras. Continue acompanhando o Diário de Finanças e fique por dentro de pesquisas que ajudam a compreender os desafios socioeconômicos do país.

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