Discriminação contra portugueses no Brasil reaparece em debate -

Discriminação contra portugueses no Brasil reaparece em debate

Discriminação contra portugueses no Brasil volta a ser tema de discussão após o Ministério das Relações Exteriores avaliar medidas contra a xenofobia direcionada a brasileiros em Portugal, fenômeno que evidencia episódios semelhantes já vividos pelos lusitanos em território brasileiro.

A historiadora Gladys Sabina Ribeiro, da Universidade Federal Fluminense (UFF), lembra que o sentimento antilusitano marcou diferentes períodos do País, sobretudo entre as décadas de 1890 e 1920, quando os portugueses representavam 1/5 da população total e metade da força de trabalho ativa em 1890.

Discriminação contra portugueses no Brasil reaparece em debate

Segundo Ribeiro, o ideal de “povos irmãos”, recorrente no discurso oficial, sempre conviveu com manifestações de preconceito. Ela cita passeatas, jornais e até leis que buscavam restringir a presença lusitana em postos de trabalho. Exemplo emblemático foi o Decreto 20.291, de 12 de agosto de 1931, mais conhecido como Lei dos 2/3, que exigia que dois terços dos empregados formais fossem brasileiros natos, medida criada em meio à depressão econômica.

Raízes históricas da hostilidade

Para entender a origem do antilusitanismo, a pesquisadora sugere olhar para o Rio de Janeiro do início do século XIX. Na época, muitos portugueses — inclusive clandestinos — aceitavam tarefas consideradas “vis e ignóbeis” para garantir sustento, gerando disputa direta com escravizados que buscavam juntar recursos para a alforria. A competição agravava tensões econômicas, raciais e sociais.

O historiador Luiz Felipe Alencastro divide o mercado de trabalho carioca em três fases: africana (até 1850), luso-africana (até 1870) e luso-brasileira (a partir de 1870). Já Joel Serrão destaca que a emigração portuguesa para o Brasil intensificou-se a partir do fim do século XVIII, impulsionada pela busca de melhores condições de vida, incremento confirmado pelo acervo “Movimentação de Portugueses no Brasil (1808-1842)”, do Arquivo Nacional.

Manifestação cultural e legislação

Além das políticas trabalhistas, a hostilidade aparecia na cultura popular. Sambas como “Batuque na Cozinha”, de João da Bahiana, retratavam portugueses como rivais brancos e solteiros. Piadas disseminadas no cotidiano reforçavam estereótipos e mantinham o preconceito vivo, ainda que velado por uma retórica de fraternidade.

Movimentos antilusitanos também ganharam as ruas. Nos “footings” — passeios coletivos em áreas centrais —, brasileiros protestavam contra a presença portuguesa, enquanto jornais específicos difundiam a ideia de que imigrantes seriam “usurpadores” de oportunidades locais. À época, muitos viam os lusitanos como ameaça à sobrevivência econômica, não apenas como adversários nacionais.

Xenofobia e desafios atuais

Hoje, brasileiros relatam em Portugal episódios de discriminação e obstáculos ao acesso a emprego e moradia, cenário que motivou o Itamaraty a estudar ações de proteção consular. Para Gladys Ribeiro, a situação “espelha” a experiência portuguesa no Brasil pós-Independência, quando questões identitárias rasas construíram um nacionalismo precoce a partir de 1822.

A professora ressalta que o preconceito contra portugueses nunca desapareceu por completo. “A retórica da irmandade suplantou e escondeu um preconceito que sempre viveu na sombra”, afirma. Segundo ela, a xenofobia podia explodir em brigas nos chamados “Pequenos Portugal”, bairros próximos às “Pequenas Áfricas”, como a região da Praça Onze, no Rio de Janeiro.

Perspectivas para o diálogo

Especialistas avaliam que reconhecer a história de hostilidade mútua é passo fundamental para combater novas formas de xenofobia. Ao retomar dados de 1890 e revisitar leis como a dos 2/3, pesquisadores defendem que políticas públicas atuais devem priorizar integração e combate a estereótipos, evitando que ciclos de discriminação se repitam entre Brasil e Portugal.

O Itamaraty ainda não divulgou detalhes das possíveis medidas de apoio aos brasileiros em solo luso. Enquanto isso, acadêmicos reforçam a necessidade de debates que contextualizem o passado antilusitano e promovam respeito bilateral, lembrando que migração e diversidade moldaram a construção social dos dois países.

Para acompanhar outras análises sobre dinâmicas econômicas e oportunidades de trabalho, visite a seção de Economia do Diário de Finanças.

Em resumo, as tensões históricas entre brasileiros e portugueses servem de alerta sobre como crises econômicas e identitárias podem alimentar preconceitos. Entender essa trajetória é essencial para construir relações baseadas em respeito e cooperação. Continue acompanhando nossas atualizações e participe do debate.

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