Oferta de gado no Brasil cai e pressiona preço global da carne. A diminuição no número de bovinos prontos para abate sinaliza o início de um ciclo de escassez que pode sustentar a alta dos preços da carne bovina em todo o mundo, de acordo com consultorias e bancos especializados no agronegócio.
Após dois anos de produção aquecida, impulsionada por grandes rebanhos e custos competitivos, pecuaristas brasileiros passaram a reter fêmeas para recompor plantéis. O movimento reduz imediatamente a disponibilidade de animais e tende a prolongar a fase de aperto na oferta, afetando tanto o mercado interno quanto as exportações.
Oferta de gado no Brasil cai e pressiona preço global da carne
César de Castro Alves, gerente de consultoria agronômica do Itaú BBA, explica que o mercado está “saindo da fase de excesso” e entrando em um período de déficit que pode se estender por alguns anos. A forte elevação no preço dos bezerros confirma a mudança de ciclo: quanto mais caro o animal jovem, maior o incentivo para que criadores segurem matrizes e ampliem a reposição dos pastos.
Sinais de aperto: números projetam queda no abate
Levantamento da Datagro prevê retração de 5,3% no abate de bovinos em 2025, encerrando dois anos consecutivos de crescimento. O Rabobank, por sua vez, projeta redução de 5% a 6% na produção total de carne bovina do país no mesmo período. Mesmo assim, o Brasil deve permanecer como maior exportador mundial, com estimativa de recorde de 4,4 milhões de toneladas embarcadas.
A eficiência reprodutiva melhorou nos últimos anos e pode suavizar a escassez em relação a ciclos anteriores, comenta João Otávio de Assis Figueiredo, analista de commodities da Datagro. Ainda assim, a tendência é de disponibilidade menor no curto prazo, situação que respinga diretamente nos preços.
Impacto internacional: EUA e Austrália também enfrentam restrições
A perspectiva de menor oferta brasileira ganha peso extra porque outros grandes fornecedores vivem cenários semelhantes. Nos Estados Unidos, o rebanho está no nível mais baixo em décadas após sucessivas secas e ração cara. Analistas não veem início consistente de retenção de novilhas antes de 2026. Na Austrália, segundo maior exportador, criadores também se preparam para reter mais fêmeas.
Raphael Galo, chefe de agronegócio da A7 Capital, destaca que 2025 será “crucial” para o mercado global: “Todos os principais países estarão focados em recompor rebanhos ao mesmo tempo”. O desequilíbrio entre oferta restrita e demanda firme deve manter o mercado aquecido.
Imagem: Divulgação
Efeito no consumidor: preço da carne permanece no foco
Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump priorizou a redução dos custos da carne bovina ao adotar políticas de estímulo às importações e revisar tarifas. Contudo, com a oferta mundial apertada, a meta se torna mais difícil. A Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo) avalia que a carne enviada ao exterior chegará a preços mais altos, impulsionada pelo apetite global por proteínas.
“A oferta restrita no próximo ano pode deixar o mercado bastante firme, porque a demanda internacional continua forte”, resume Paulo Mustefaga, diretor-executivo da Abrafrigo. Para o consumidor, o cenário aponta para valores sustentados ou em alta, tanto no mercado brasileiro quanto nas principais economias importadoras.
Perspectivas à frente
Enquanto o Brasil ajusta sua produção, especialistas reforçam que o ciclo de recomposição de rebanhos costuma ser longo. O processo exige tempo para que as fêmeas retidas gerem novos bezerros e estes alcancem peso de abate. Até lá, a disponibilidade de carne tende a permanecer limitada, mantendo pressão sobre os preços e atraindo atenção de governos, frigoríficos e consumidores em todo o planeta.
Para acompanhar outros fatores que influenciam a economia e os preços, confira a seção de economia do Diário de Finanças, onde publicamos análises e atualizações diárias.
Em resumo, a queda na oferta de gado brasileiro inaugura um ciclo de escassez que deve impulsionar o valor da carne bovina mundialmente. Continue acompanhando o Diário de Finanças para receber alertas sobre as próximas movimentações do mercado e entender como elas podem afetar seu bolso.



