PEC da Blindagem aprovada pela Câmara dos Deputados na quarta-feira (17) restabelece o voto secreto para autorizar a abertura de processos criminais contra parlamentares e amplia garantias como foro privilegiado e limites a medidas cautelares.
Pelo texto, deputados e senadores só poderão ser processados com autorização da própria Casa, em votação sigilosa e sem registro nominal, a ser realizada em até 90 dias após o pedido do Supremo Tribunal Federal (STF).
PEC da Blindagem: Câmara aprova retorno do voto secreto
A proposta tramitou em dois turnos e recebeu 353 votos favoráveis e 134 contrários no primeiro; no segundo, 344 a 133. Mesmo com a aprovação folgada, a matéria ainda precisa passar pelo Senado antes de ser promulgada.
Como funciona o voto secreto hoje
Atualmente, o voto sigiloso é exceção no Congresso, restrito a hipóteses previstas na Constituição e nos regimentos internos. São exemplos:
- Confirmação, após sabatina no Senado, de ministros do Supremo Tribunal Federal, presidente e diretores do Banco Central e procurador-geral da República;
- Eleição do presidente e demais integrantes das Mesas Diretoras da Câmara e do Senado;
- Escolha de presidentes e vice-presidentes de comissões permanentes;
- Aprovação de ministros do Tribunal de Contas da União indicados pelo Executivo;
- Chancela a chefes de missão diplomática de caráter permanente;
- Exoneração do procurador-geral da República antes do término do mandato;
- Suspensão de imunidades parlamentares em estado de sítio;
- Deliberações solicitadas por pelo menos um décimo dos deputados antes da Ordem do Dia.
O que muda com a nova proposta
A PEC altera quatro pontos centrais da proteção parlamentar:
1. Prisão em flagrante
Se um deputado ou senador for detido em flagrante por crime inafiançável — racismo, tortura, tráfico de drogas ou terrorismo, por exemplo — os autos devem ser enviados à respectiva Casa em até 24 horas. A manutenção ou revogação da prisão passará a ser definida em votação secreta; hoje, a votação é nominal.
2. Abertura de processo criminal
O STF voltará a depender da autorização da Câmara ou do Senado para processar parlamentares. O plenário terá 90 dias para decidir em votação secreta. Entre 1988 e 2001, quando regra semelhante vigorou, apenas um pedido foi autorizado.
3. Medidas cautelares
Deputados e senadores só poderão ser alvo de medidas cautelares expedidas pelo próprio STF, vedando determinações de instâncias inferiores. As cautelares incluem proibição de contato com investigados ou obrigação de permanecer em endereço fixo.
4. Foro privilegiado ampliado
O foro especial alcançará presidentes de partidos com representação no Congresso, que passarão a ser julgados diretamente pelo STF, assim como presidente e vice da República, ministros de Estado, deputados e senadores.
Reações no Congresso e no Judiciário
A proposta recebeu apoio expressivo de parlamentares do Centrão. Siglas governistas, entretanto, argumentam que o texto incentiva a impunidade. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou publicamente a iniciativa como “não séria”.

Imagem: Divulgação
No STF, o ministro Dias Toffoli determinou prazo de 10 dias para a Câmara prestar esclarecimentos sobre a tramitação da PEC. O pedido decorre de ação protocolada pelo deputado Kim Kataguiri (União Brasil-SP) que solicita a suspensão do andamento. Após receber as informações, Toffoli decidirá se interrompe ou não o processo legislativo.
Próximos passos
Concluída a etapa na Câmara, a matéria segue agora para apreciação no Senado. Para ser promulgada, precisa obter apoio de três quintos dos senadores em dois turnos de votação — 49 votos em cada rodada. Caso o texto seja alterado, volta aos deputados; se aprovado como está, será promulgado como emenda constitucional.
Nos bastidores, líderes partidários estimam que a votação no Senado ocorra até novembro. O governo articula ajustes ou barrar a proposta, enquanto defensores da PEC argumentam que a blindagem evita perseguição política e garante equilíbrio entre poderes.
Entidades da sociedade civil já sinalizaram mobilização contrária. Organizações afirmam que o sigilo dificulta a transparência e compromete o controle social sobre o trabalho parlamentar.
Ao mesmo tempo, juristas discutem se a medida afronta cláusulas pétreas da Constituição, como a publicidade dos atos do Estado e a igualdade de todos perante a lei. A discussão deve ganhar força conforme o projeto avança no Senado e no STF.
Embora a aprovação na Câmara represente vitória expressiva para seus defensores, o futuro da PEC da Blindagem ainda depende de uma disputa política no Congresso e no Judiciário, cujo desfecho pode redefinir o alcance das prerrogativas parlamentares no país.
Para acompanhar o impacto dessa proposta em outras agendas legislativas, veja também nossas atualizações na seção Governamental.
Resumo: a PEC da Blindagem restaura o voto secreto em decisões que autorizam processos contra parlamentares, estende foro privilegiado a presidentes partidários e restringe medidas cautelares, mas enfrenta resistência no Senado e questionamentos no STF. Continue acompanhando e compartilhe esta notícia para manter o debate sobre transparência e responsabilidade no Congresso.



