PIX Parcelado deve ganhar regulamentação do Banco Central (BC) até o fim de setembro de 2025, padronizando um serviço já oferecido por bancos e fintechs, mas que carrega juros elevados e potencial aumento da inadimplência.
A nova funcionalidade permitirá que consumidores parcelem compras por meio do sistema de transferências instantâneas, enquanto o lojista receberá o valor total à vista. Segundo o BC, a medida pretende ampliar o uso do PIX em transações de maior valor e criar alternativa de crédito para cerca de 60 milhões de brasileiros sem acesso ao cartão de crédito convencional.
PIX Parcelado: regras do BC elevam custo e risco de dívida
O que muda com a regulamentação
Hoje, cada banco define prazos, taxas e limites do PIX Parcelado de forma independente. Com as novas regras, o Banco Central quer estabelecer critérios mínimos de transparência, padronizar a apresentação do Custo Efetivo Total (CET) e ajudar o consumidor a comparar ofertas. A Febraban ressalta que a adesão das instituições continuará opcional, mas quem ofertar o serviço deverá seguir as diretrizes oficiais.
Quem poderá usar
Diferentemente do PIX tradicional, gratuito e aberto a qualquer correntista, o PIX Parcelado será restrito a clientes que já possuem linhas de crédito pré-aprovadas. Para liberar o limite, os bancos analisam score de crédito, renda, movimentação da conta e histórico de relacionamento. “A modalidade será utilizada por quem é bancarizado e já dispõe de limite aprovado”, explica Walter Faria, diretor-adjunto de Serviços e Segurança da Febraban.
Custos e comparações com o cartão
Embora o envio de PIX continue gratuito, o parcelamento embute uma operação de crédito. Bancos podem cobrar juros em torno de 2% ao mês e repassar Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) ao consumidor — encargos que não incidem nos parcelamentos sem juros do cartão de crédito. Para o diretor de Negócios do Braza Bank, Marcelo Sá, a regulamentação precisará esclarecer se a remuneração virá via “fee transacional” cobrada do lojista ou via juros repassados ao cliente. Dependendo do modelo, o PIX Parcelado pode ficar menos atraente que o cartão tradicional.
A transparência do CET aparece como ponto central: todas as despesas, de juros a tarifas, deverão estar detalhadas antes da contratação. “Como em qualquer oferta de crédito, o banco é obrigado a disponibilizar o custo efetivo total”, reforça Faria.
A força do PIX no Brasil
Desde o lançamento, em 2020, cerca de 70 milhões de pessoas passaram a usar serviços financeiros. O PIX já é o principal meio de transferência do país. No segundo trimestre de 2025, o sistema registrou 19,3 bilhões de pagamentos, 53,5% acima do total de transações com cartões (12,6 bilhões) e 335% superior a boletos, convênios e débitos diretos (4,4 bilhões).
Perfis que devem recorrer ao novo crédito
Para a economista Carla Beni, professora da FGV e conselheira do Corecon-SP, três grupos tendem a usar o PIX Parcelado:
- Consumidores com limite aprovado, mas sem cartão de crédito, que veem no recurso um “carnê digital” para compras de maior valor, como eletroeletrônicos.
- Clientes que já têm cartão, mas pretendem comparar taxas ou usar pagamento à vista como entrada, buscando descontos.
- Endividados que esgotaram o limite do cartão e buscam crédito extra em outras instituições.
Alerta para inadimplência
O avanço do crédito parcelado desperta preocupação. Dados do Ministério da Fazenda mostram que o rotativo do cartão respondeu por 60,5% dos casos de inadimplência de pessoas físicas em julho de 2025. Para o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), o PIX Parcelado pode repetir o problema, sobretudo entre famílias de baixa renda, e comprometer a credibilidade do próprio PIX.

Imagem: Divulgação
Em nota, o Idec afirma que muitos usuários podem confundir a transferência parcelada com simples divisão de pagamento, quando, na prática, estarão contratando um empréstimo. A entidade recomenda que o BC:
- Crie identidade própria para o produto, evitando o uso da marca PIX.
- Exija contratos claros e direitos equivalentes aos de outras linhas de crédito.
- Estabeleça limites para evitar superendividamento e garanta ativação da função apenas por iniciativa do usuário.
- Conduza consulta pública ampla, priorizando a proteção ao consumidor.
Próximos passos
O Banco Central ainda não detalhou as regras finais nem concedeu entrevista sobre o tema. A expectativa é que a norma seja publicada até 30 de setembro de 2025. Até lá, bancos e fintechs seguem ofertando o PIX Parcelado com condições próprias, enquanto lojistas e consumidores aguardam definições sobre taxas, prazos máximos e responsabilidades em caso de inadimplência.
Com a regulamentação, o mercado estima aumento da adesão do comércio ao PIX em compras altas e possibilidade de concorrência direta com o cartão de crédito. Entretanto, especialistas reforçam que a decisão de parcelar deve considerar o custo efetivo total, comparando com opções já consolidadas no mercado.
No cenário de juros elevados e endividamento crescente, a orientação de educadores financeiros é clara: antes de adotar o PIX Parcelado, confirme o valor final da compra, avalie sua capacidade de pagamento e não acumule parcelas acima do orçamento mensal.
Se você quer entender melhor como funciona o CET e comparar diferentes formas de financiamento, confira nosso guia completo sobre limites e tarifas de cartão de crédito.
Em resumo, o PIX Parcelado traz conveniência e amplia alternativas de crédito, mas exige atenção redobrada aos juros e ao risco de endividamento excessivo. Acompanhe as atualizações do Banco Central e compartilhe esta notícia para que mais pessoas tomem decisões financeiras conscientes.



