Selic: atividade forte dificulta cortes e eleva juros A persistência do crescimento econômico e de um mercado de trabalho aquecido, mesmo com a Selic em 15% desde junho de 2025, pressiona a curva de juros futuros e coloca em dúvida a extensão do ciclo de cortes previstos para 2026.
Indicadores divulgados na primeira quinzena de janeiro mostraram avanço de 1% nas vendas do varejo restrito e alta de 0,7% no IBC-Br de novembro, ambos superando o consenso de mercado. Esses dados reforçaram a percepção de que a economia resiste bem ao patamar atual da Selic, aumentando o desconforto entre investidores aplicados – aqueles que lucram com a queda das taxas.
Selic: atividade forte dificulta cortes e eleva juros
Ao longo da última semana, as taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimentos mais longos chegaram a subir 20 pontos-base, enquanto o dólar comercial variou apenas 0,14% e o Ibovespa avançou 0,88%, mesmo após correção na sexta-feira. Para Bruno Marques, gestor macro da XP Asset Management, chama atenção o fato de a bolsa renovar máximas históricas e o real seguir protegido pelo alto carry oferecido pelo juro básico, contrastando com o estresse observado nos juros.
Reprecificação do mercado
Diante do cenário, a curva de juros passou a precificar uma Selic de 12,70% em dezembro de 2026, acima da mediana de 12,25% apontada no relatório Focus. No mercado de opções, 82% das apostas para a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de janeiro apontam manutenção da taxa em 15%. Para o encontro de março, as probabilidades de queda de 0,25 ponto, de 0,50 ponto ou de estabilidade estão empatadas em torno de 31% a 32%, refletindo elevada incerteza.
Visões de gestores e bancos
Marques explica que a XP mantém apenas posições reduzidas em juros locais, preferindo apostas tomadas – que ganham com alta das taxas – em Treasuries dos Estados Unidos. Segundo ele, a recente subida dos rendimentos dos títulos americanos contaminou a curva brasileira. Integrantes de tesourarias relatam fluxo expressivo de investidores estrangeiros em posições tomadas nos vértices mais longos, movimento que contribuiu para a inclinação da curva.
No Société Générale, a estrategista Phoenix Kalen e o economista Dev Ashish continuam projetando que a Selic caia a 12,25% até o fim do ano, mas reconhecem que a demanda doméstica forte, impulsionada pelo emprego aquecido e pelo estímulo fiscal, pode tornar a inflação mais persistente. O banco mantém posições aplicadas em DI de janeiro de 2028 desde novembro, esperando quedas nas taxas curtas, mas admite que a parte longa deve seguir pressionada por riscos fiscais e eleitorais.
Fatores que sustentam a atividade
Analistas destacam três vetores para a resiliência econômica: (1) crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) acima do potencial em 2025, (2) recuo de 1 ponto percentual na taxa de desemprego no mesmo período e (3) aceleração da massa salarial no fim do ano. Além disso, entrou em vigor, na virada de 2025 para 2026, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, medida que deve injetar renda disponível e sustentar o consumo nos próximos meses.
Interferência do cenário externo
Luiz Eduardo Portella, sócio da Novus Capital, observa que o movimento global de “reflation trade” favoreceu commodities e ações da América Latina, mas não se refletiu nos juros locais. Ele lembra que a T-note de dez anos voltou a superar 4,20%, adicionando pressão às taxas brasileiras. Para Portella, se o Copom decidir iniciar o ciclo de cortes em março, o ritmo tende a ser modesto, possivelmente 0,25 ponto percentual, justamente por causa dos números de atividade mais fortes.
Perspectivas para o Copom
Apesar do discurso do Banco Central sinalizar flexibilização, parte do mercado já admite que o início efetivo do ciclo possa ser adiado para abril. A dúvida central é se o colegiado terá confiança suficiente na convergência da inflação às metas, especialmente diante da expansão fiscal e dos efeitos defasados dos juros ainda altos sobre a atividade.
Imagem: Gabriel Reis
Para investidores, o termômetro será a evolução dos indicadores de inflação de curto prazo e a trajetória das expectativas coletadas pelo Focus. Caso as projeções para 2027 – ano-calendário relevante para o Copom – permaneçam acima de 3%, o espaço para cortes agressivos se estreita.
Impactos nos diferentes ativos
Enquanto a curva de juros testa novos patamares, o Ibovespa foi sustentado pelo desempenho de empresas exportadoras e pelo fluxo estrangeiro direcionado a ações de commodities. Já o dólar continua ancorado pelo elevado diferencial de juros a favor do Brasil, que mantém o real entre as moedas de melhor carry do mundo.
No mercado de renda fixa, as Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B) intermediárias voltaram a oferecer retorno real próximo de IPCA + 8% ao ano, patamar considerado de estresse elevado. Investidores locais, mais sensíveis ao risco fiscal, tendem a reduzir posições com vencimento longo, ampliando a inclinação da curva.
O que acompanhar
Nas próximas semanas, a divulgação dos dados de emprego de dezembro, do IPCA de janeiro e do Produto Interno Bruto do quarto trimestre devem calibrar as apostas. Além disso, as emissões de títulos do Tesouro Nacional seguirão no radar, uma vez que a oferta maior pode pressionar ainda mais os juros, caso a demanda seja insuficiente.
Em síntese, a persistência da atividade desafia as expectativas de cortes expressivos na Selic em 2026, elevando a volatilidade na curva de juros e impondo cautela aos investidores.
Para entender como oscilações na taxa básica impactam outras linhas de crédito, confira nosso conteúdo sobre financiamentos e economia doméstica.
Resumo: A força da atividade e o mercado de trabalho aquecido adiam o alívio monetário esperado, pressionando a Selic e trazendo incerteza aos juros futuros. Continue acompanhando nossas atualizações e saiba como se posicionar em meio a esse cenário dinâmico.



