Brasília – A decisão do governo dos Estados Unidos de aplicar tarifa extra de 50% sobre produtos brasileiros acentuou o maior atrito diplomático entre os dois países em duas décadas, avaliou o cientista político Carlos Gustavo Poggio. Para ele, a postura do presidente norte-americano Donald Trump revela uma estratégia “abertamente imperial”, que tenta influenciar decisões internas do Brasil ao adotar pressão econômica.
Poggio cita como exemplo dessa ingerência a tentativa de Washington de interferir no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, marcado para 2 de setembro no Supremo Tribunal Federal (STF). Bolsonaro é réu por suposta participação em um plano golpista após as eleições de 2022 e pode ser condenado a até 40 anos de prisão. Nesta semana, a Polícia Federal indiciou o ex-mandatário e o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) por coação de autoridades e tentativa de abolir o Estado Democrático de Direito.
Pressões sobre tecnologia e histórico de interferência
A internacionalista Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina, lembra que o afrouxamento das regras para as big techs no Brasil também é visto como influência norte-americana. Segundo ela, interferências dos EUA na região remontam à Doutrina Monroe (1823), passam pela Operação Brother Sam – mobilização de navios de guerra na costa brasileira durante o golpe de 1964 – e chegam à visita do secretário de Estado Cyrus Vance, em 1977, que tentou barrar o acordo nuclear Brasil-Alemanha.
“Luva de veludo” retirada
De acordo com Vidal, a sobretaxa simboliza uma “diplomacia de punho de ferro” sem disfarces. Poggio acrescenta que, historicamente, Washington evitava ações tão diretas para não estimular o nacionalismo de esquerda no Brasil, estratégia agora abandonada.
Reação brasileira e apoio da China
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a medida como inegociável ataque à soberania e buscou alternativas de exportação com o presidente chinês, Xi Jinping. Hoje, a China responde por 28% das vendas externas do Brasil, enquanto os EUA ocupam a segunda posição, comprando petróleo bruto, aeronaves, aço, café e celulose – comércio que sustenta cerca de 500 mil empregos no país.
Diplomacia paralela de Eduardo Bolsonaro
Licenciado do mandato e morando nos EUA, Eduardo Bolsonaro atua junto a grupos conservadores como a Conservative Political Action Conference (CPAC) para pressionar por anistia aos investigados pelos atos de 8 de janeiro de 2023. “É uma diplomacia com arma na cabeça, baseada em chantagem”, critica Poggio.

Cenário futuro
Para o professor Fidel Flores, da Universidade de Brasília, as tensões tendem a se intensificar à medida que se aproxima o julgamento de Jair Bolsonaro no STF. Ele pondera, contudo, que a perda de popularidade de Trump diante das eleições parlamentares de 2025 pode levar a Casa Branca a rever posturas mais radicais.
Especialistas lembram que, apesar do embate tarifário, a relação Brasil-EUA permanece densa, com programas de cooperação militar, educacional e comercial que dificilmente serão rompidos no curto prazo.
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Com informações de Terra



