Tráfico de animais silvestres desafia reabilitação no Brasil. Tráfico de animais silvestres permanece como uma das principais ameaças à fauna brasileira, superlotando centros de triagem e impondo barreiras para que papagaios, araras e outras espécies voltem a sobreviver livremente em seus habitats.
No Centro de Manejo e Conservação de Animais Silvestres (CeMaCAS), localizado no Parque Anhanguera, em São Paulo, o cotidiano expõe as cicatrizes deixadas pelo comércio ilegal. A papagaia-verdadeira Loura, apreendida em 2021, vive isolada em quarentena, automutila-se por estresse e repete, sem parar, o hino do São Paulo Futebol Clube — sinal evidente de domesticação forçada.
Tráfico de animais silvestres desafia reabilitação no Brasil
Casos como o de Loura ilustram o grande obstáculo enfrentado pelos 25 Centros de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e por estruturas municipais e privadas espalhadas pelo país.
Aves traumatizadas em quarentena
No corredor de quarentena do CeMaCAS, o odor de frutas frescas contrasta com o estresse das aves que desaprenderam a bater asas sem esbarrar nas grades. Além de papagaios-verdadeiros (Amazona aestiva), são atendidos periquitos, maracanãs, jandaias-de-testa-vermelha e araras-canindé, muitas delas agora classificadas como ameaçadas de extinção.
A veterinária Alice Soares relata lesões comuns em filhotes recém-apreendidos: fraturas, hemorragias, úlceras de córnea e desnutrição decorrentes de transporte em caixas superlotadas. “Muitos nem sobrevivem à viagem”, lamenta.
Volume recorde em 2024
Somente em 2024, cerca de 60 mil animais silvestres ingressaram nos Cetas. Entre janeiro e julho, o CeMaCAS recebeu 1.237 animais, volume 34% superior ao registrado em 2021. Segundo dados do Ibama, três a cada quatro indivíduos resgatados nos últimos cinco anos conseguiram retorno parcial à natureza, mas quase 20% morreram antes do fim do processo de reabilitação.
O papagaio-verdadeiro, destaque do mercado ilegal por sua habilidade de “falar”, pode ser adquirido por apenas R$ 100 na origem, nas regiões Centro-Oeste ou Nordeste. O preço salta para até R$ 1.000 quando o animal chega a grandes centros urbanos do Sul e Sudeste. Estudos da ecóloga Gláucia Seixas indicam que, entre 1988 e 2024, mais de 12,5 mil filhotes foram apreendidos apenas em Mato Grosso do Sul — número que representa menos de 10% do volume real capturado.
Risco adicional fora do país
Quando o tráfico cruza fronteiras, o retorno torna-se ainda mais complexo. As ararinhas-azuis (Cyanopsitta spixii), extintas na natureza em 2000, permaneceram décadas sob domínio de criadouros estrangeiros. Em 2001, o Brasil solicitou à Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES) que qualquer movimentação da espécie dependesse de anuência nacional, buscando tratar todos os indivíduos como uma única população mundial.
Vírus interrompe soltura de ararinhas-azuis
Entre 2022 e 2025, onze ararinhas-azuis foram reintroduzidas em Curuçá, na Bahia, resultado de parceria do governo brasileiro com uma organização alemã. Porém, testes realizados em novembro de 2025 detectaram circovírus, causador da Doença do Bico e das Penas dos Psitacídeos, em todos os exemplares soltos e em 92 aves mantidas em criadouro próximo.
Imagem: Heloísa Traiano
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) multou o Criadouro Ararinha-Azul em R$ 1,8 milhão por falhas de biossegurança. Com isso, a libertação dos onze indivíduos foi suspensa, assim como a prevista soltura de um novo grupo em julho passado. Outros 27 exemplares permanecem no Zoológico de São Paulo.
Especialistas pedem estratégia nacional
Falta de dados integrados e recursos escassos dificultam o combate ao tráfico. Juliana Machado Ferreira, da Freeland Brasil, defende um plano nacional que siga o modelo dos Estados Unidos desde 2014, baseado em aplicação da lei, redução da demanda e cooperação internacional. “O Brasil faz um esforço grande, mas não suficiente. Precisamos de mais Cetas, pessoal e investimento”, avalia.
Para Gláucia Seixas, priorizar fiscalização na natureza e educação de consumidores reduziria a pressão sobre centros de reabilitação. “Reabilitar é caro e nem sempre dá certo; o monitoramento de longo prazo é limitado”, afirma.
Atualmente, 1.254 espécies e subespécies da fauna brasileira estão ameaçadas de extinção, das quais 257 são aves. Outras 337 são classificadas como quase ameaçadas, podendo entrar oficialmente na lista vermelha em breve.
No cenário em que o tráfico de animais silvestres persiste, profissionais nos centros de triagem continuam a “enxugar gelo”, enquanto aves como Loura aguardam a chance de reaprender a viver fora das grades.
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Este conteúdo resumiu os desafios do tráfico de fauna no Brasil e seus impactos nos esforços de reabilitação. Acompanhe nossos próximos artigos e compartilhe esta reportagem para ampliar a conscientização.



