Will Bank: disputa de R$ 5 bi entre bandeiras e maquininhas mobiliza Mastercard, American Express e as principais adquirentes, que tentam definir quem ficará responsável pelos calotes gerados após a liquidação da instituição financeira.
Desde o fim de janeiro, quando o Will Bank, controlado pelo conglomerado Banco Master, entrou em liquidação, e depois do pedido de recuperação judicial do Grupo Fictor, em 2 de fevereiro, o ecossistema de pagamentos discute como honrar uma fatura bilionária que não foi quitada pelos clientes dos dois emissores.
Will Bank: disputa de R$ 5 bi entre bandeiras e maquininhas
De um lado, Mastercard e American Express alegam que as normas contratuais atuais lhes permitem suspender repasses às adquirentes diante de inadimplência dos emissores. Do outro, empresas de maquininhas como Stone, Getnet, Mercado Pago e PagBank reivindicam o recebimento integral dos valores, citando a resolução 522 do Banco Central (BC), publicada em novembro, que determina ser responsabilidade da bandeira garantir o pagamento ao comerciante, mesmo com recursos próprios, caso os mecanismos de proteção falhem.
Valores em jogo
Documentos internos apontam que o Will Bank deixou um saldo de R$ 5 bilhões em faturas de cartão não pagas. Já o Grupo Fictor acumula R$ 893 milhões, valor que coloca a American Express Brasil como o maior credor listado nos autos da recuperação judicial – informação contestada pela própria Amex, que nega ter tal montante a receber da empresa.
Como funciona o fluxo de pagamento
Quando o consumidor usa o cartão, o emissor libera o crédito, a bandeira liquida a operação e a adquirente, normalmente, antecipa o valor ao lojista. Depois que o cliente quita a fatura, o emissor envia o dinheiro à bandeira, que, por sua vez, repassa às maquininhas. Com a quebra do emissor, esse ciclo se rompe: sem receber, bandeiras e adquirentes ficam sem recursos para distribuir.
A cláusula “honor all cards”, presente nos regulamentos das bandeiras, obriga as maquininhas a aceitar todos os cartões, sem discriminação. Em contrapartida, cabe às próprias bandeiras avaliar a solidez dos emissores e exigir garantias financeiras antes de autorizar a emissão dos plásticos.
Regra nova, impasse antigo
A resolução 522 do BC oferece sustentação ao pleito das adquirentes, mas prevê 180 dias para adaptação contratual. Como o prazo ainda não expirou, Mastercard e American Express defendem que a obrigatoriedade não está vigente. As duas bandeiras também sustentam que seus contratos facultam às maquininhas reter os recebíveis dos clientes de Will Bank e Fictor, recebendo à medida que as dívidas forem pagas – hipótese considerada inviável, pois grande parte dos consumidores já está inadimplente.
Associações setoriais se dividiram. A Abranet, que reúne Mercado Pago, PicPay e Recargapay, reforçou ao BC que “é responsabilidade da bandeira garantir tais pagamentos”. A Abecs, que representa bancos, bandeiras e adquirentes, afirmou acompanhar o caso para preservar “os fluxos financeiros e a segurança do ecossistema”.
Possível rota judicial
Sem consenso, as partes levaram seus argumentos ao Banco Central, que busca uma solução sistêmica. Caso não haja acordo administrativo, o embate deve parar na Justiça, prolongando a incerteza para comerciantes que já receberam adiantamentos e para consumidores que não sabem a quem direcionar o pagamento.
Enquanto isso, a Visa, que também operava com o Banco Master, pagou integralmente as adquirentes, demonstrando abordagem diferente. A atitude fortaleceu a tese de que as bandeiras devem assumir o risco quando o emissor entra em colapso.
Mastercard declarou, em nota, “cumprir todas as obrigações legais e regulatórias” e seguir colaborando com o liquidante e o regulador “para minimizar os impactos”. American Express limitou-se a informar que não é credora do Grupo Fictor e que seu nome foi citado de forma incorreta em documento judicial de 2 de fevereiro de 2026.
Imagem: Divulgação
No centro da discussão está a proteção do comerciante, elo final da cadeia que confiou na liquidação automática das vendas realizadas. A definição de quem pagará a conta de R$ 5,9 bilhões deverá balizar futuros contratos entre bandeiras, emissores e adquirentes, além de influenciar novas regras do Banco Central para o setor de cartões.
Por ora, lojistas seguem recebendo pela Visa, mas aguardam uma decisão envolvendo as transações processadas por Mastercard e American Express. Caso a disputa avance para a Justiça, o processo pode demorar meses e até anos, potencializando o risco de perdas definitivas para as empresas de maquininhas.
O Banco Central, consultado sobre o andamento das discussões, não comentou. Zetta e Abipag, que também representam participantes do mercado de pagamentos, igualmente optaram por não se pronunciar.
Em meio à incerteza, especialistas recomendam que comerciantes redobrem a atenção à saúde financeira dos emissores e diversifiquem o uso de bandeiras para reduzir a exposição a futuros colapsos.
O desfecho do caso Will Bank e Fictor servirá de teste para a eficácia da resolução 522 e para a solidez da cadeia de pagamentos no Brasil.
Para quem trabalha ou investe no setor, acompanhar essa decisão é essencial, pois ela pode redefinir responsabilidades em todo o arranjo de cartões de crédito.
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Em resumo, a disputa bilionária envolvendo Will Bank, Fictor, bandeiras e maquininhas revela fragilidades no sistema de pagamentos e promete mudanças contratuais profundas. Continue acompanhando o Diário de Finanças para atualizações e outras notícias que impactam o seu bolso.



