Banco Master concentrou as conversas no tradicional almoço de fim de ano da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), realizado na última semana, ofuscando temas que em anos anteriores pautaram o evento, como política fiscal e eleições.
O encontro, que reúne os principais executivos do setor, foi marcado por um misto de alívio com a rápida liquidação extrajudicial determinada pelo Banco Central (BC) em 12 de novembro e críticas ao modelo de distribuição de títulos que sustentou o crescimento da instituição comandada por Daniel Vorcaro.
Banco Master domina almoço da Febraban após intervenção
Embora Vorcaro jamais tenha participado do evento desde que adquiriu o antigo Banco Máxima em 2016, seu nome e o do Master estiveram em praticamente todas as rodas de conversa. Executivos citaram a expansão “vertiginosa” do banco, os investimentos considerados arriscados e a descoberta de carteiras de crédito supostamente fabricadas.
Resiliência do sistema é elogiada
Em discurso aos presentes, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que a autarquia “seguiu o gabarito” previsto em normas e destacou a atuação coordenada com Ministério Público, Polícia Federal e Judiciário. Sem mencionar explicitamente o Master, Galípolo disse ser “gratificante ver as instituições funcionando como devem”. A liquidação do banco foi a maior já executada pelo BC no país.
Isaac Sidney, presidente da Febraban e anfitrião do almoço, reforçou a necessidade de equilíbrio entre inovação e regulação, lembrando que 2025 também foi marcado por sucessivos ataques cibernéticos ao setor. “Inovação só se sustenta quando há solidez e ética. Neste momento, precisamos muito de rigor”, declarou.
Críticas ao modelo de distribuição
Vários banqueiros apontaram falhas no sistema de distribuição de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) de bancos médios, listando plataformas de investimento como peças-chave na pulverização de risco. No caso do Master, cerca de R$ 41 bilhões em títulos estavam cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e precisarão ser honrados.
Executivos destacaram que corretoras são remuneradas com comissões elevadas para vender papéis considerados mais arriscados, sem limites claros. Para alguns, o caso expôs a necessidade de redefinir responsabilidades das plataformas e de acelerar a atualização das normas do BC.
FGC: recomposição do caixa em debate
Com o pagamento bilionário aos credores do Master, o FGC manterá aproximadamente R$ 81 bilhões em caixa, equivalente a dois terços do total antes do episódio. Mesmo assim, discutem-se medidas extraordinárias para recompor os recursos, como alíquotas adicionais ou antecipação de até cinco anos de contribuições dos bancos.
Parte do setor defende recomposição gradual para evitar repasse de custos aos clientes via spread bancário. Outra possibilidade aventada é o BC reduzir temporariamente o compulsório, como ocorreu em 2008, compensando parte do desembolso do fundo.
Imagem: Divulgação
Gestão Campos Neto sob fogo cruzado
Em falas reservadas, alguns banqueiros associaram o crescimento acelerado do Master a falhas de supervisão durante a gestão de Roberto Campos Neto no BC. Hoje vice-chairman do Nubank, Campos Neto foi citado como responsável por “duas manchas”: a expansão do banco de Vorcaro e a redução da Selic a 2% ao ano em 2020, movimento considerado exagerado por parte do mercado.
Negócios do BRB entram na mira
Outro ponto de preocupação foi a compra de R$ 12 bilhões em carteiras de crédito do Master pelo Banco de Brasília (BRB), considerada elevada para o porte da instituição. A transação, segundo participantes, seria inevitavelmente analisada pelo BC e levou ao afastamento do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.
Lições para o futuro
Entre as conclusões mais citadas no almoço, ficaram três mensagens principais: a solidez do sistema bancário brasileiro demonstrada pela intervenção rápida; a urgência de regras mais rígidas para distribuição de produtos de risco; e a necessidade de revisão das normas do FGC, garantindo que recursos garantidos não sejam alocados em ativos questionáveis.
Ao final do encontro, a política fiscal, foco nos dois anos anteriores, praticamente não apareceu — reflexo da ausência do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, substituído pelo secretário-executivo Dario Durigan, e do protagonismo absoluto do caso Master.
Em resumo, o episódio reforçou a percepção de que a supervisão bancária precisa acompanhar o ritmo das inovações financeiras, enquanto bancos e plataformas de investimento deverão ajustar práticas para preservar a confiança do investidor.
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