Calor extremo em Belém deixou de ser exceção e virou a regra para quem vive na capital paraense. Em 2023, a cidade registrou 212 dias com temperatura máxima acima dos valores históricos, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O número faz de Belém a capital brasileira com mais ocorrências de calor extremo no ano passado.
A escalada das temperaturas atinge de forma desigual os bairros. Nas áreas centrais, repletas de mangueiras centenárias, a sombra ajuda a amenizar o desconforto. Já nas periferias, onde faltam árvores, a radiação solar incide diretamente sobre as casas, muitas vezes sem ventilação adequada.
Calor extremo em Belém bate recorde e afeta moradores
As medições do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), analisadas pelo Laboratório de Modelagem de Tempo e Clima da Universidade Federal do Pará (UFPA), mostram que a cidade registrou 164 dias acima de 35,5 °C entre 2020 e 2023. O total supera a soma das seis décadas anteriores. Para o meteorologista Everaldo de Souza, esse salto tem relação direta com a redução de aproximadamente 20% da cobertura florestal municipal entre 1985 e 2023.
Desigualdade climática a poucas quadras de distância
O bairro do Jurunas, na zona oeste da capital, ilustra essa disparidade. Ronald Monteiro, 15 anos, chega da escola perto do meio-dia e ajuda o pai, Jessé, na extração de polpa de açaí em uma rua sem qualquer árvore. “Depois do almoço eu tento cochilar, mas o calor é tão forte que não consigo dormir”, relata. “Fico exausto e meu rendimento cai.”
O desconforto não é apenas uma sensação. Estudos citados por Souza apontam que a manutenção de temperaturas elevadas durante a noite dificulta a redução da temperatura corporal, etapa fundamental para o sono profundo. “Várias noites mal dormidas podem impactar aprendizado, produção de hormônios e saúde mental”, explica o meteorologista.
Quando a militância nasce do calor
Também no arquipélago de Belém, mas na ilha de Caratateua, vive João Victor da Silva, 16 anos, conhecido como “João do Clima”. A mãe dele, Lene, fazia diariamente o percurso de quase duas horas sob sol forte até o trabalho no centro, desenvolveu câncer de pele e morreu quando João ainda era criança. “Associo a doença dela às condições climáticas agravadas pela desigualdade”, diz.
O adolescente transformou a dor em ativismo. Organizou protestos contra descarte irregular de lixo, liderou mutirões de limpeza e plantio de árvores e está entre os jovens que participam da COP30, conferência do clima que se encerra nesta semana em Belém. João pede políticas públicas que contemplem periferias e ilhas, como pavimentação ecológica – blocos intertravados que permitem infiltração de água – e ampliação de áreas verdes.
Impacto direto no alimento símbolo da Amazônia
A elevação das temperaturas e a mudança no regime de chuvas também são apontadas como fatores que afetam a produção de açaí. O litro do fruto, alimento básico nos lares paraenses, atingiu preço médio de R$ 28 em outubro de 2025, contra R$ 18,40 no mesmo mês do ano anterior, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese/Pará).
Nos meses de férias, Ronald costumava colher o fruto em áreas ribeirinhas. “Antes o cacho era maior e a palmeira parecia mais saudável”, recorda. Agora, encontra caroços mais ressecados e polpa de menor qualidade. O fenômeno combina clima irregular, que altera o período de floração do açaizeiro, e a crescente exportação do produto, que reduz a oferta no mercado local.
Imagem: Divulgação
Floresta menor, temperatura maior
Para Souza, a perda de cobertura vegetal cria um círculo vicioso. “Com menos árvores, a umidade diminui, o solo se aquece e a temperatura sobe ainda mais”, destaca. Nas ruas asfaltadas, a situação é agravada pelo efeito urbano de ilhas de calor, que pode elevar em vários graus a sensação térmica em relação a bairros arborizados.
Entre 2020 e 2023, Belém marcou pico de 37,3 °C e ficou atrás apenas de Melgaço, também no Pará, no ranking nacional de extremos de temperatura. “Sabemos que a Amazônia vem sendo transformada. Uma floresta intacta regula o microclima; quando se remove vegetação, o primeiro reflexo é na temperatura”, afirma o meteorologista.
Juventude quer ser ouvida
Ronald e João compartilham expectativas de serem incluídos nas decisões que moldarão o futuro da Amazônia. “Dizem que a gente é o futuro do Brasil, então precisamos ter voz”, afirma o jovem do Jurunas. João completa: “Estamos na mesma tempestade, mas em barcos diferentes. Alguns em iates, outros em barquinhos e há quem esteja sem barco algum.”
Enquanto as discussões climáticas avançam a poucos quilômetros de suas casas, ambos convivem diariamente com o calor extremo em Belém. E aguardam por soluções que devolvam noites tranquilas de sono, preços justos no açaí e a possibilidade de viver plenamente a adolescência.
Para aprofundar o tema e entender como decisões econômicas influenciam o cotidiano, confira nossa cobertura completa em Economia.
Em resumo, o recorde de 212 dias de calor extremo em Belém expõe efeitos diretos na saúde, na rotina e na renda dos moradores. Acompanhe nossas atualizações e saiba como a pauta climática pode impactar também o seu bolso.



