A escalada verbal entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Benjamin Netanyahu — que levou Israel a anunciar, na segunda-feira, o rebaixamento de suas relações diplomáticas com o Brasil — não deve atingir as trocas comerciais entre os dois países. Fontes dos dois lados afirmam que, apesar do distanciamento político, não há intenção de romper canais econômicos ou fechar embaixadas.
Ambas as representações diplomáticas continuarão abertas, mas sob comando de encarregados de negócios. A Embaixada do Brasil em Tel Aviv opera sem embaixador há mais de um ano, enquanto a missão israelense em Brasília está sem titular há cerca de duas semanas, aguardando a chegada do novo responsável interino.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indicam que, em 2024, o Brasil exportou US$ 725 milhões para Israel e importou US$ 1,2 bilhão. Entre os produtos enviados ao mercado israelense, destaque para carne bovina, soja, milho e café. Do lado das compras, fertilizantes respondem por mais da metade do total importado.
A Câmara Brasil-Israel de Comércio e Indústria (Bril Chamber) avalia o intercâmbio como estratégico, combinando o agronegócio e a indústria brasileiros com a liderança israelense em tecnologia. Há projetos conjuntos em agritech, saúde, cibersegurança, energias renováveis e defesa — com exemplos como Netafim, BeeFree, AgroScout, Mobileye e AEL Sistemas.
O termo “rebaixamento” usado por Jerusalém não existe formalmente na diplomacia, apontam interlocutores do governo brasileiro. Para o professor Roberto Goulart Menezes, da Universidade de Brasília, a medida significa que assuntos rotineiros passarão a ser tratados por níveis inferiores da chancelaria israelense, sinalizando um “esfriamento” político.
A crise ganhou força na terça-feira, quando o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, acusou Lula de antissemitismo e de apoiar o Hamas. O Itamaraty classificou as declarações como “mentiras e agressões”. No dia anterior, Netanyahu já havia desistido de indicar Gali Dagan para chefiar a embaixada em Brasília, alegando falta de resposta do governo brasileiro.

Imagem: oglobo.globo.com
O atrito soma-se ao episódio de fevereiro de 2024, quando Lula comparou a ofensiva israelense em Gaza ao Holocausto durante discurso na Etiópia. Na ocasião, o presidente foi declarado persona non grata por Israel, e o então embaixador brasileiro em Tel Aviv foi convocado para uma reprimenda no Museu do Holocausto.
Mesmo com o ambiente político deteriorado, autoridades insistem que os laços econômicos seguirão ativos e que as empresas dos dois países continuarão a operar normalmente.
Para entender como tensões diplomáticas podem repercutir na balança comercial e no câmbio, confira nosso especial sobre comércio exterior na editoria de Economia.
Com informações de O Globo



