Crise no Irã: protestos de 2025 se tornam maiores desde 2009 — A onda de manifestações que se espalhou pelo Irã desde o fim de dezembro ganhou proporções inéditas, tornando-se a maior contestação ao regime desde 2009 e expondo tensões econômicas e políticas que incluem a perda de metade do valor da moeda local e uma inflação acima de 40% ao ano.
Os atos já alcançaram 25 das 31 províncias iranianas, deixaram mais de 60 mortos — entre civis e forças de segurança — e provocaram reações diretas do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e do presidente norte-americano, Donald Trump.
Crise no Irã: protestos de 2025 se tornam maiores desde 2009
Em pronunciamento na sexta-feira (9), Khamenei classificou os manifestantes como “vândalos e sabotadores” e afirmou que o governo “não vai recuar”. Ele acusou parte dos protestos de buscar agradar Trump, que, por sua vez, advertiu que “atingirá muito duramente” o Irã caso o regime amplie o número de mortes.
Motivações econômicas e políticas
O estopim das manifestações foi o agravamento da crise econômica. O rial perdeu cerca de 50% de seu valor em 2025, enquanto a inflação superou 40% em dezembro. A renúncia do presidente do Banco Central em 5 de janeiro evidenciou a dificuldade de conter a desvalorização cambial. Sanções reimpostas pelos Estados Unidos desde 2018, intensificadas em 2025 e acompanhadas de restrições aprovadas pela ONU em setembro, pressionaram ainda mais as contas iranianas.
A população também protesta contra a desigualdade social, alegando benefícios desproporcionais à elite ligada ao regime. Com a repressão policial, as reivindicações passaram do campo econômico para pedidos explícitos de renúncia de Khamenei, no poder desde 1989.
Repressão e número de mortes
Organizações de direitos humanos relatam mais de 60 vítimas fatais até 10 de janeiro, incluindo ao menos 45 manifestantes confirmados pela ONG Iran Human Rights, sediada na Noruega. O dia 7 de janeiro foi o mais letal, com 13 mortos e centenas de feridos, segundo a entidade. Estimativas apontam mais de 2 mil pessoas detidas desde o início da crise.
Autoridades intensificaram a repressão na quinta-feira (8), 12º dia consecutivo de protestos. Imagens verificadas pela AFP mostram multidões em Teerã entoando slogans como “Seyyed Ali será destituído”, em referência a Khamenei, e “é a batalha final, Pahlavi voltará”, aludindo à dinastia deposta em 1979.
Cortes de internet e reação dos EUA
Para conter a mobilização, o governo ordenou um apagão nacional de internet e telefonia em 8 de janeiro. A ONG Netblocks confirmou a interrupção generalizada dos serviços, dificultando a circulação de vídeos e relatos independentes. Ainda assim, registros online mostraram prédios públicos depredados e confrontos com forças de segurança.
Nos Estados Unidos, Trump reiterou sua política de “pressão máxima” e acusou Teerã de promover violações de direitos humanos. Em entrevista ao radialista Hugh Hewitt, o presidente afirmou que, se o Irã “começar a matar pessoas”, sofrerá retaliação severa. Khamenei respondeu chamando o norte-americano de “arrogante” e mencionou “mãos manchadas de sangue” após bombardeios de 2025 contra instalações nucleares iranianas.
Imagem: Divulgação
Escalada regional e impacto das sanções
As dificuldades financeiras do Irã foram agravadas por ataques israelenses e norte-americanos contra alvos nucleares em junho de 2025, elevando o custo da defesa e restringindo receitas de exportação. O governo de Teerã promoveu reuniões emergenciais para evitar colapso, mas medidas de liberalização do câmbio acabaram acelerando a queda do rial.
Desde 1979, o país funciona como república teocrática, conferindo poderes máximos ao líder supremo. Críticas sobre restrições a liberdades individuais — acentuadas após a morte de Mahsa Amini em 2022 — já fomentaram protestos esporádicos, sobretudo entre jovens. As atuais manifestações, contudo, alcançam escala nacional e reúnem diferentes faixas da sociedade.
Perspectivas imediatas
Analistas apontam que a combinação de pressão econômica externa, insatisfação interna e resposta repressiva pode prolongar a instabilidade. Embora Khamenei descarte concessões, o presidente Masoud Pezeshkian pediu “máxima moderação” e “diálogo”. Até o momento, não há indícios de que o governo esteja disposto a negociar reformas políticas significativas.
A continuidade dos atos dependerá da capacidade dos manifestantes de manter coesão diante dos bloqueios de comunicação e do risco de novas prisões. A comunidade internacional acompanha atentamente, temendo repercussões sobre o abastecimento global de petróleo e a segurança no Oriente Médio.
Para compreender como choques econômicos influenciam mercados globais, vale conferir a análise disponível na seção Economia do Diário de Finanças.
Os protestos no Irã ressaltam como sanções, inflação elevada e repressão política podem convergir em uma crise de grandes proporções. Continue acompanhando nossas atualizações e compartilhe este artigo para manter mais pessoas informadas.



