Dólar tende a enfraquecer ainda mais, dizem Stuhlberger e Azevedo

Dólar mais fraco é a projeção dominante para os próximos anos, de acordo com Luis Stuhlberger, CEO da Verde Asset Management, e Rodrigo Azevedo, sócio da Ibiuna Investimentos. Os dois gestores participaram nesta segunda-feira, em São Paulo, do painel de abertura do evento Macro Vision, organizado pelo Itaú BBA.

Segundo os especialistas, a atual configuração geopolítica multipolar, somada a políticas econômicas adotadas pelos Estados Unidos, tende a manter a moeda norte-americana em trajetória de desvalorização, mesmo após queda superior a 10% registrada no ano.

Dólar tende a enfraquecer ainda mais, dizem Stuhlberger e Azevedo

Para Stuhlberger, o dólar permanece acima de seu patamar histórico, mesmo com as recentes perdas. “Se a cotação recuar mais, ainda não estará abaixo do valor justo”, afirmou. Ele observa uma migração “forte” de capital para ativos reais nos últimos dois anos, como ouro, bitcoin, prata, cobre, urânio e ações de infraestrutura. “A grande questão agora é saber se quem entra nesse movimento chega atrasado”, acrescentou.

Azevedo concorda que o dólar mais fraco deverá prevalecer “nos próximos dois anos” diante da multipolaridade global, mas lembra que a dominância da moeda norte-americana não desaparecerá de imediato. “Há inércia; por muito tempo o dólar continuará sendo a principal referência”, explicou. Para ele, euro e yuan surgem como potenciais concorrentes no médio prazo.

Alocação excessiva nos EUA pode acelerar desvalorização

O sócio da Ibiuna ressalta que, em 2025, a poupança média global esteve “sobrealocada” em ativos dos Estados Unidos. A simples decisão de reduzir esse peso já seria, em sua avaliação, suficiente para pressionar o dólar para baixo. “Se você tem dúvida, é sinal de que possui Estados Unidos demais na carteira”, alertou.

Ele pondera que um eventual avanço expressivo da inteligência artificial, área na qual os EUA lideram, poderia reverter parte desse fluxo. “Caso ocorra um salto de produtividade, o país voltaria a atrair recursos”, disse. Porém, medir esse impacto agora é “muito difícil”, o que reforça a expectativa de depreciação cambial no curto prazo.

Fed sob pressão e forças contraditórias

Stuhlberger acredita que o ex-presidente Donald Trump continuará pressionando o Federal Reserve (Fed) a reduzir juros “perigosamente para baixo”, movimento cujo alcance é “difícil de prever”. O CEO da Verde nota que, embora o mercado de trabalho americano justifique cortes, o PIB dos EUA tem surpreendido positivamente, o que pode limitar o espaço para estímulos mais agressivos.

Ele também vê o mercado imobiliário fraco como fator adicional de viés baixista para as taxas. “Se esse setor sofrer uma queda mais forte, poderá tornar o Fed mais dovish”, avaliou, lembrando que a política tarifária ampliada durante o governo Trump exerce pressão contrária, elevando preços.

Expectativas de juros: menos cortes que o consenso

Azevedo recordou que grande parte dos analistas projeta que o Fed leve os juros a 3%, com dois cortes neste ano e mais dois no próximo. Na visão da Ibiuna, porém, o afrouxamento monetário tende a ser menor. “Não estamos convencidos de que a economia dos EUA esteja tão fraca”, afirmou. Caso os dados futuros reforcem essa percepção, a redução de juros pode ficar aquém do consenso, impactando mercados globais.

Ativos reais ganham destaque

Ao comentar a busca de investidores por proteção, Stuhlberger citou o desempenho de ativos como ouro, prata e bitcoin, todos beneficiados pela desconfiança em relação ao dólar. “Estamos no meio desse movimento”, disse, salientando que vários desses instrumentos já acumularam fortes valorizações.

A recomendação implícita dos gestores é de cautela na alocação excessiva em ativos denominados na moeda norte-americana, em linha com a projeção de dólar mais fraco nos próximos trimestres. Ao mesmo tempo, eles reforçam que mudanças estruturais, como avanços tecnológicos, podem alterar o cenário.

Em síntese, a combinação de um mundo multipolar, políticas internas dos EUA e realocação de portfólios globais sustenta, por ora, a expectativa de continuidade da depreciação do dólar, sem descartar eventuais inflexões caso fatores como produtividade ou política monetária surpreendam positivamente.

Para os investidores, a mensagem de Stuhlberger e Azevedo é clara: monitorar dados econômicos, avaliar o peso de ativos americanos na carteira e considerar alternativas em ativos reais tornam-se estratégias essenciais diante da tendência de enfraquecimento da moeda norte-americana.

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