Financiamento climático no Brasil permanece concentrado em setores de alto impacto ambiental, deixando comunidades vulneráveis sem a proteção necessária, de acordo com o relatório “Encruzilhada Climática”, divulgado pela Oxfam Brasil. O documento denuncia insuficiência de recursos e revela como a crise climática aprofunda desigualdades raciais, de gênero e territoriais.
Segundo a organização, apenas 12% dos R$ 185 bilhões previstos no Plano Plurianual 2024-2027 para ações climáticas destinam-se à adaptação, etapa fundamental para preparar regiões mais expostas a eventos extremos como secas e enchentes.
Financiamento climático no Brasil é desigual, diz Oxfam
O estudo mostra que Norte e Nordeste, onde se concentram os piores índices de renda e os maiores contingentes de população preta, parda, indígena e quilombola, enfrentam os impactos mais severos dos desastres ambientais. Favelas e periferias — ocupadas por 73% de pessoas negras — costumam localizar-se em áreas de risco e carecem de infraestrutura contra chuvas intensas ou longos períodos de estiagem.
Para Viviana Santiago, diretora-executiva da Oxfam Brasil, o cenário evidencia “racismo ambiental” ao ampliar injustiças históricas. Ela ressalta que “não haverá transição justa sem enfrentar o racismo, a desigualdade de gênero e a concentração de terras”.
Gastos públicos priorizam setores emissores
Em 2023, a área de gestão ambiental recebeu somente 0,34% do Orçamento da União — menos de R$ 1 a cada R$ 300 em recursos federais. Em contraste, agricultura e transporte, atividades com elevada geração de carbono, receberam respectivamente R$ 90,25 bilhões e R$ 43,91 bilhões.
O Fundo Clima, destinado a projetos de mitigação e adaptação, contou com R$ 10,4 bilhões, quantia bem inferior aos R$ 400 bilhões reservados ao Plano Safra 2024/2025. Para a Oxfam, essa distribuição “privilegia setores que intensificam a crise climática em detrimento da proteção das pessoas e territórios em maior vulnerabilidade”.
Resposta governamental é majoritariamente reativa
O levantamento critica a postura do Estado brasileiro, caracterizada por liberações extraordinárias de crédito apenas após catástrofes. Exemplo recente são os R$ 111,6 bilhões autorizados para responder às enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024.

Imagem: Divulgação
Especialistas ouvidos no relatório defendem que investimentos preventivos custam menos e salvam mais vidas do que ações emergenciais. Além disso, a Oxfam afirma que adaptabilidade reduz gastos futuros com reconstrução de infraestrutura.
Propostas para uma transição justa
Para reorientar o orçamento público e garantir justiça climática, a organização sugere:
- Incluir recortes de raça, gênero e território em todas as políticas climáticas;
- Assegurar participação efetiva de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais nas decisões;
- Direcionar recursos prioritariamente à adaptação em territórios mais vulneráveis;
- Condicionar o crédito rural à adoção de práticas sustentáveis e à redução de emissões.
Oxfam conclui que, sem mudança estrutural no modelo de financiamento, o país continuará reforçando desigualdades e ampliando a exposição de milhões de brasileiros a desastres ambientais.
Para quem deseja entender como a alocação de recursos impacta outros setores da economia, confira também nossa análise completa na seção Economia.
Em resumo, o relatório “Encruzilhada Climática” reforça a urgência de redistribuir verbas públicas para proteger quem mais sofre com os efeitos do aquecimento global. Acompanhe nossas atualizações e saiba como essas mudanças podem afetar seu cotidiano.



