Tensões políticas no Irã ameaçam exportação de milho do Brasil e já acendem o alerta entre produtores e tradings nacionais. A possibilidade de os Estados Unidos imporem tarifa de 25% a países que mantenham negócios com Teerã, anunciada pelo presidente Donald Trump, faz o agronegócio brasileiro calcular impactos sobre um mercado que, em 2025, absorveu quase US$ 3 bilhões em produtos agrícolas do País.
Dados do Ministério da Agricultura apontam que o Irã liderou a compra de milho brasileiro no ano passado, adquirindo 9 milhões de toneladas, volume equivalente a 23% de todo o cereal exportado pelo Brasil. Em valor, o grão respondeu pela maior fatia das vendas externas ao país do Oriente Médio.
Tensões políticas no Irã ameaçam exportação de milho do Brasil
O consultor Vlamir Brandalizze, da Brandalizze Consulting, considera improvável que alimentos entrem na lista de produtos tarifados por Washington. “Não vejo Trump proibindo o comércio de milho ou de alimentos em geral, porque a população iraniana já enfrenta dificuldades sociais”, afirmou.
Mercado calcula rotas alternativas
Mesmo com o risco de sobretaxa, analistas avaliam que as tradings brasileiras teriam margem para redirecionar o milho. Tiago Medeiros, diretor da Czarnikow, acredita que outros fornecedores poderiam suprir o Irã enquanto repõem estoques com cereal do Brasil. “Os iranianos não deixarão de comer”, resumiu.
Para Willian Hernandes, da FG/A, a real dificuldade surgiria apenas se a restrição dos EUA se prolongar. No curto prazo, o excedente poderia ser encaminhado a novos destinos ou armazenado, estratégia possível devido à capacidade de estocagem do País.
Efeitos sobre fertilizantes
A tensão geopolítica também afeta a ureia, principal item da pauta de importações agrícolas brasileiras vindo do Irã. Em 2025, essas compras somaram US$ 66,8 milhões, segundo o Comex Stat. Tomás Pernías, da StoneX, recorda que o Irã é grande exportador do insumo, usado na produção de fertilizantes nitrogenados, e qualquer instabilidade no Golfo eleva receios sobre oferta global.
Os maiores provedores de ureia ao Brasil, porém, foram Nigéria, Omã e Catar. Há suspeitas de que parte do produto iraniano chegue ao mercado nacional sob outras bandeiras, já que Teerã enfrenta sanções internacionais há anos. Para Pernías, o cenário reforça a necessidade de ampliar a fabricação doméstica de nitrogenados para reduzir dependência externa.
Tarifa de Trump pode não sair do papel
No boletim mais recente da Royal Rural, o analista Ronaldo Fernandes avalia como “pouco provável” que a nova ameaça americana avance, uma vez que poderia afetar a China, principal parceira comercial do Irã. Trump, lembrou Fernandes, suspendeu tarifas contra Pequim até novembro e não deve colocar em risco a venda projetada de 12 milhões de toneladas de soja aos chineses.
Além disso, o pico de compras iranianas de milho ocorre em junho. Caso a medida fosse adotada de imediato, seu impacto sobre as exportações brasileiras no curto prazo seria limitado, explicam os especialistas.
Imagem: Wenders Araujo
Brasil mantém capacidade de reação
Mesmo figurando como 11º destino do agro nacional, o Irã tem peso estratégico para o setor, tanto como comprador de milho quanto fornecedor de insumos. Ainda assim, a diversificação de clientes e a flexibilidade logística dão fôlego aos embarques brasileiros. “Se reduzirmos as vendas a Teerã, haverá oferta extra aqui dentro ou para outros mercados”, sintetizou Fernandes.
Enquanto a Casa Branca não detalha a aplicação da tarifa, produtores, tradings e analistas seguem monitorando o tabuleiro político. Nos bastidores, estuda-se a realocação de cargas para a Ásia e a manutenção de estoques como válvula de escape, caso o impasse se prolongue.
Para o governo brasileiro, o episódio reforça a urgência de políticas que estimulem tanto a diversificação de destinos de exportação quanto a produção interna de fertilizantes, reduzindo a exposição a crises externas.
Em resumo, o agronegócio brasileiro acompanha as tensões políticas no Irã com cautela, mas acredita que o impacto imediato sobre o comércio de milho e de insumos tende a ser limitado. A capacidade de redirecionar o cereal e a dependência iraniana por alimentos funcionam como amortecedores enquanto o mercado aguarda a definição de Washington.
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